Sexo socialista

Na sociedade emancipada o sexo não será dominado pela fantasia da subordinação, dizem as feministas mais radicais. Instrumentalizar o corpo do outro para transformá-lo em um objeto manipulável e destituído de vontade é abrir espaço para sua violação.

A penetração, por natureza, diz Andrea Dworkin em Intercourse, estabelece uma hierarquia. Por isso mesmo, seria imune a qualquer reforma. Pode-se concluir assim, diriam alguns, que sexo seria sinônimo de violação, mas é melhor ir mais devagar. É fácil desqualificar Dworkin desta forma, transformando suas afirmações em slogans radicais infecundos. Quando na verdade, ela acertou em cheio.

Sexo não é sinônimo de penetração. Há outras formas de prazer sexual tão excitantes quanto o intercurso carnal. A penetração não é a “cereja do bolo”, não é objetivo único e final de toda e qualquer relação sexual. Não há razão para estabelecer uma hierarquia entre as diversas manifestações de prazer. A fantasia masculina com o sexo entre lésbicas demonstra bem o que Dworkin quer dizer.

Intercurso carnal não é sinônimo de estupro. A penetração pode ocorrer de formas variadas e em contextos diversos. Dworkin exagera quando se refere à “natureza” deste ato, que é tão simbólico e plástico como qualquer outro. Mas está certa ao apontar a naturalização da relação entre intercurso e violação, em especial no campo da pornografia.

Candida Royalle é uma reformista no campo da pornografia. Fundou em 1984 a primeira produtora de filmes para mulheres. Não fosse a prisão do dualismo de gênero, talvez fosse mais adequado dizer que seus filmes agradam pessoas cuja sensibilidade para o sexo não gira em torno da imagem da dominação. E que não acreditam que o intercurso carnal seja uma Bastilha a ser derrubada.

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Sobre José Rodrigo Rodriguez

Escritor de poesia/prosa e teórico crítico.
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