Diferença em exposição

Livro: Difference on display. Diversity in Art, Science and Society (NAI Publishers, 2010).

80 artistas e ensaístas contemporâneos (inclusive Marc Quinn, Marlene Dumas, the Chapman Brothers, Viktor & Rolf, Louise Bourgeois e Aernout Mik) discutem/figuram a relação entre normal e anormal.

Ideal de beleza, mercadorias, tecnologia e democracia: o livro (catálogo de uma exposição ocorrida no Beurs van Berlage de Amsterdam) é o retrato de uma gramática em expansão.

Porque a arte chega sempre antes para dar nome a tudo aquilo que a sociedade reprime e nega. Mas porque dar nome é dar norma, será preciso destruir as palavras para sempre de novo.

Não há democracia possível sem arte. Nem utopia possível sem democracia.

Perca-se no livro em qualquer ordem de leitura. É impossível resumir, é impossível resenhar. Obrigatório para os interessados no tema, interessante para quem gosta de arte contemporânea.

“Difference on display” é uma ilustração precisa do diagnóstico de Arthur Danto sobre a arte de hoje, que promove a fusão entre obra e discurso sobre a obra. E não se trata necessariamente de uma perda de autonomia da estética. Da subordinação da arte à política ou à filosofia.

Provavelmente está nascendo outra forma de arte em que a relação obra e mundo se expressa de outra maneira.

O que o Surrealismo propôs como transgressão estaria se tornando normal?

Não sei, mas das duas uma: ou radicalizamos a melancolia da Teoria Estética de Adorno e reafirmamos a autonomia da arte em termos tradicionais ou nos movemos na direção de novas fronteiras como quer Danto.

Neste ponto Adorno e seu conceito de “material” pode ajudar, desde que lido procedimentalmente. Arte é tudo aquilo que reconstrói e renova o material herdado de nossos pais.

Mas de tanto renovar alguma coisa, ela escapa, explode e muda.

O tempo não pára.

Ulisses ainda é um romance.  Mas é também muitas outras coisas.

Não há mais linhas estáveis para traçar os limites do estético. Esta questão se repõe a cada nova obra.

Inventar o possível e o impossível.

Hoje a arte é a garantia do possível que se afirma apenas por contraste. Será possível viver apenas o que está posto?

Por alguma razão, ele nunca se basta. Os humanos não param de nascer diferentes e de reivindicar seu lugar no mundo e na arte.

“Difference on display”: assista agora este drama desenrolando-se ao vivo.

Ou será mesmo uma tragédia?

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Sobre José Rodrigo Rodriguez

Escritor de poesia/prosa e teórico crítico.
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