Constelação zero: Apresentação

Olá.

Este é o primeiro (zero) número da Constelação.
“Textos curtos, ideias longas” é o nosso lema.
Abrimos com um tema que é também uma pessoa: Laerte Coutinho.
Existem relações entre os textos, mas isso não quer dizer que elas sejam lógicas.
Eles estão flutuando por aí, como as estrelas.
Mas estão próximos por causa de alguma força de atração.
Como uma constelação.

Abraços.

Publicado em Constelação LAERTE - n. Zero | Deixe um comentário

Laerte comenta: site de lingerie para homens

Tela do site, que vende lingeries feitas especialmente para o corpo do homem

Xdress.com é um site que vende lingerie feitas especialmente para o corpo masculino. Chamamos o homenageado desta primeira edição da Constelação, Laerte Coutinho, para dizer o que achou da novidade.

Laerte, o que você achou disso?
Fiquei maravilhado com aquela coisa. No começo tive um certo estranhamento, mas depois falei: “Isso é bárbaro”. É a ideia da quebra da roupa de gênero. O legal é que eu botei esse link nos fóruns do assim chamado “crossdressing”. O pessoal achou horrível [risos]. Todas falavam assim: “Eu uso roupa feminina. Não vou botar essa coisa nunca!”. Gente, pra nossa bundinha masculina uma calcinha adaptada não é muito mais legal? [Responderam] “Não, isso é horrível, eu vou direto na seção feminina”. O que eu deduzi é que rola um certo fetiche mesmo na auto-construção com o vestuário feminino. Para uma parte do pessoal rola um problema de autenticidade, que muitas vezes é comprovada pela seção da loja em que você vai.  Se você não tem peito, qual é o problema de usar um sutiã ou baby-doll adaptado ao peito masculino?

Fora opiniões do tipo: “Para mim, homem tem que se vestir que nem homem. Nós podemos” Eu jamais pensaria ouvir uma frase dessas aqui [em um fórum de crossdressers]. É uma espécie de preservação do espaço de fetichismo, um pensamento fechado. A chamada transgressão do chamado crossdressing, na verdade é uma aceitação dos padrões que sempre existiram, só que vistos de uma maneira específica. Mais ou menos com o caso da pessoa que é transexual e enfrenta o clamor social para se inserir dentro de um outro sexo, fisicamente, inclusive, através de uma cirurgia, e se enquadra numa feminilidade tradicional. Vira uma fêmea tradicional, e não uma mulher autônoma e transgressora. Isso existe. “Eu quero ser mulher”. Mas qual mulher? “Como qualquer mulher” Qualquer mulher, não, uma mulher submissa, que assume padrões culturais conservadores.

Se tivesse uma loja dessas aqui, você daria uma passada?
Claro que daria. Até para ver os homens [risos].

Visite o xdress.com

Publicado em Constelação LAERTE - n. Zero | 3 Comentários

Diferença em exposição

Livro: Difference on display. Diversity in Art, Science and Society (NAI Publishers, 2010).

80 artistas e ensaístas contemporâneos (inclusive Marc Quinn, Marlene Dumas, the Chapman Brothers, Viktor & Rolf, Louise Bourgeois e Aernout Mik) discutem/figuram a relação entre normal e anormal.

Ideal de beleza, mercadorias, tecnologia e democracia: o livro (catálogo de uma exposição ocorrida no Beurs van Berlage de Amsterdam) é o retrato de uma gramática em expansão.

Porque a arte chega sempre antes para dar nome a tudo aquilo que a sociedade reprime e nega. Mas porque dar nome é dar norma, será preciso destruir as palavras para sempre de novo.

Não há democracia possível sem arte. Nem utopia possível sem democracia.

Perca-se no livro em qualquer ordem de leitura. É impossível resumir, é impossível resenhar. Obrigatório para os interessados no tema, interessante para quem gosta de arte contemporânea.

“Difference on display” é uma ilustração precisa do diagnóstico de Arthur Danto sobre a arte de hoje, que promove a fusão entre obra e discurso sobre a obra. E não se trata necessariamente de uma perda de autonomia da estética. Da subordinação da arte à política ou à filosofia.

Provavelmente está nascendo outra forma de arte em que a relação obra e mundo se expressa de outra maneira.

O que o Surrealismo propôs como transgressão estaria se tornando normal?

Não sei, mas das duas uma: ou radicalizamos a melancolia da Teoria Estética de Adorno e reafirmamos a autonomia da arte em termos tradicionais ou nos movemos na direção de novas fronteiras como quer Danto.

Neste ponto Adorno e seu conceito de “material” pode ajudar, desde que lido procedimentalmente. Arte é tudo aquilo que reconstrói e renova o material herdado de nossos pais.

Mas de tanto renovar alguma coisa, ela escapa, explode e muda.

O tempo não pára.

Ulisses ainda é um romance.  Mas é também muitas outras coisas.

Não há mais linhas estáveis para traçar os limites do estético. Esta questão se repõe a cada nova obra.

Inventar o possível e o impossível.

Hoje a arte é a garantia do possível que se afirma apenas por contraste. Será possível viver apenas o que está posto?

Por alguma razão, ele nunca se basta. Os humanos não param de nascer diferentes e de reivindicar seu lugar no mundo e na arte.

“Difference on display”: assista agora este drama desenrolando-se ao vivo.

Ou será mesmo uma tragédia?

Publicado em Constelação LAERTE - n. Zero | Deixe um comentário

Calote: o cartum como trocadilho

Calote faz piada com gente pelada, com o caráter tosco da masculinidade e com os Ursinhos Carinhosos. Apesar de seu pai ser cientista contábil, Calote é o apelido de Marcelo (seu nome verdadeiro), não seu sobrenome. Se não, eu sugeriria pessoalmente que mandasse uma carta à seção Nomes Inadequados da revista Trip.

Hoje você não precisa nem ir até à HQMix , embora deva, para acompanhar as novidades dos quadrinhos. No caso de Calote, pode assinar o feed do blog que ele mantém, chamado Do primeiro andar. E sim, esse é o piso onde mora. Por e-mail (e originalmente para outro blog), batemos um papo rápido com Calote, um cara que é engraçado quando desenha e quando escreve respostas para as suas perguntas.

Trabalha com o quê?
Sou redator de propaganda. Eu que inventei o “Mas não ligue ainda!” (mentira).

Influências?
Monty Python, American Splendor, Quino, Rá Tim Bum. Mas os primeiros contatos com quadrinhos (tirando heróis e turma da Mônica) que ficaram bem gravados na minha cabeça foram: Chiclete com Banana, Los Três Amigos, Heavy Metal, as coisas da Editora Circo… Como todo moleque que gosta de desenhar, ficava copiando os quadrinhos desses caras.

Ídolos?
Jaguar, Ziraldo, Laerte, Angeli, Adão, B.B.King.

Que tipo de música gosta de ouvir?
Blues, rock, o que conheço de jazz (que não é muito). Quando rola uma mistura de eletrônico e rock gosto também, a lá Chemical Brothers. Mas na real, sou meio autista com música. Coloco no repeat e ouço ad eternum um disco. Black Drawing Chalks (que, aliás, desenham muito também) e Them Crooked Vultures, por exemplo, ouço até sair sangue do ouvido.

Filme favorito?
Meu último filme favorito é Bicicletas de Belleville. Mas já foi O Poderoso Chefão, Transpotting, Evil Dead, O Bom, o Mau e o Feio…

Quem levaria para uma ilha deserta?
A futura Sra. Calote. Sou romântico.

Você tem medo de altura? (trocadilho com “Primeiro andar”)
Tenho. Muito. E coincidentemente moro hoje no primeiro andar. Se meu apartamento pegar fogo posso pular da janela numa boa. Isso me traz um conforto especial.

Saiba mais sobre Calote: noprimeiroandar.blogspot.com

Publicado em Constelação LAERTE - n. Zero | Deixe um comentário

Machado de Assis Swing Homoerótico

– O mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar,
ao pé de mim.

– Você entra no mar amanhã?

– Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa.

Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta confissão, mas não posso suprimi-la; era jarretar a verdade. Nem só os apalpei com essa idéia, mas ainda senti outra cousa, achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar.

Quando saímos, tornei a falar com os olhos à dona da casa. A mão dela apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume

A modéstia pedia então, como agora, que eu visse naquele gesto de Sancha uma sanção ao projeto do marido e um agradecimento. Assim devia ser. Mas o fluido particular que me correu todo o corpo desviou de mim a conclusão que deixo escrita. Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado. Passou depressa no relógio do tempo; quando cheguei o relógio ao ouvido, trabalhavam só os minutos da virtude e da razão.

– … Uma senhora deliciosíssima, concluiu José Dias um discurso que
vinha fazendo.

– Deliciosíssima! Repeti com algum ardor, que moderei logo,
emendando-me: Realmente, uma bela noite!

(trecho do CAPÍTULO CXVIII / A MÃO DE SANCHA, DOM CASMURRO)

Publicado em Constelação LAERTE - n. Zero | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Riot Girrrls!

Garotas punk da região de Washington resolvem, na década de 90,  formar bandas, fundar fanzines e organizar festivais para falar de feminismo sem papo cabeça. Letras fortes e agressivas tratam da dominação masculina no sexo, no amor e na música. Bikini Kill, a melhor banda deste movimento, liderada pela ex-stripper Kathleen Hann, distribuía as letras das músicas em seus shows com a intenção clara de tentar mudar o mundo. Porque há artistas que não querem fazer música apenas para esquecer dos problemas. Querem incomodar, agredir, fazer pensar. Ultimamente, há poucos roqueiros deste tipo. Ou será que todos estão surdos para o rock politizado?

Publicado em Constelação LAERTE - n. Zero | Deixe um comentário

Sexo socialista

Na sociedade emancipada o sexo não será dominado pela fantasia da subordinação, dizem as feministas mais radicais. Instrumentalizar o corpo do outro para transformá-lo em um objeto manipulável e destituído de vontade é abrir espaço para sua violação.

A penetração, por natureza, diz Andrea Dworkin em Intercourse, estabelece uma hierarquia. Por isso mesmo, seria imune a qualquer reforma. Pode-se concluir assim, diriam alguns, que sexo seria sinônimo de violação, mas é melhor ir mais devagar. É fácil desqualificar Dworkin desta forma, transformando suas afirmações em slogans radicais infecundos. Quando na verdade, ela acertou em cheio.

Sexo não é sinônimo de penetração. Há outras formas de prazer sexual tão excitantes quanto o intercurso carnal. A penetração não é a “cereja do bolo”, não é objetivo único e final de toda e qualquer relação sexual. Não há razão para estabelecer uma hierarquia entre as diversas manifestações de prazer. A fantasia masculina com o sexo entre lésbicas demonstra bem o que Dworkin quer dizer.

Intercurso carnal não é sinônimo de estupro. A penetração pode ocorrer de formas variadas e em contextos diversos. Dworkin exagera quando se refere à “natureza” deste ato, que é tão simbólico e plástico como qualquer outro. Mas está certa ao apontar a naturalização da relação entre intercurso e violação, em especial no campo da pornografia.

Candida Royalle é uma reformista no campo da pornografia. Fundou em 1984 a primeira produtora de filmes para mulheres. Não fosse a prisão do dualismo de gênero, talvez fosse mais adequado dizer que seus filmes agradam pessoas cuja sensibilidade para o sexo não gira em torno da imagem da dominação. E que não acreditam que o intercurso carnal seja uma Bastilha a ser derrubada.

Publicado em Constelação LAERTE - n. Zero | Deixe um comentário